segunda-feira, 30 de abril de 2012

Guardado por deus com tanto fio dental

Semana passada, acordei com uma leve dor no dente que eu não sabia identificar muito bem o porquê. Só sabia que doía quando mordia, o que me deixou com a pulga atrás da orelha (ou no meio do dente, não dava pra saber ao certo).

No dia seguinte, a dor aumentou. Era cárie, só podia. E ainda daquelas bem entre os dentes. Como se trata cárie entre os dentes? A broca alcança? Será que tem que tirar o dente, extrair a cárie e então por de novo? Dá pra fazer isso? Pensei nos momentos em que não passei o fio dental (passo todos os dias, exceto naqueles em que a vida parece ser curta demais para passar fio dental). Devia ter passado todos os dias, pensei: a vida não é tão curta assim para precisar de uma prótese aos 21 anos. Fui até o espelho e sorri bem largo. Pelo menos não dava pra ver o dente e, se eu precisasse extrair, ninguém perceberia enquanto não houvesse um novo no lugar.

Hoje eu já tinha uma consulta marcada com o dentista (questão de siso), por isso, ontem eu decidi que reverteria aquela cárie com fio dental. Quanto fio dental fosse necessário. Todo o fio dental que há no mundo. Mas assim que passei no tal do dente, tcharan: a linha saiu toda manchada de sangue. Fiz então o que não se faz numa hora desas: consultei o Google e vocês não imaginam as coisas horrorosas que causam sangramento na gengiva.

Cheguei no dentista fingindo estar super tranqüilo, com a cara que a gente faz pra fingir pro professor que vamos tirar 10 na prova que ele está entregando. Achei melhor já começar a consulta mostrando o problema antes que ele percebesse, poupando-me da humilhação. Nem bem ele colocou a luva, eu já estava lá, de boca aberta e apontando: "é aqui ó: entre o último e o penúltimo dente, tô sentindo um leve incômodo" (achei melhor chamar de "leve incômodo" no lugar de "dor dilacerante").

Ele olhou, olhou. Franziu a testa (eu gelei), pegou o espelhinho (minha boca gelou).
- Aqui? - ele perguntou, mas eu achei melhor nem responder. Ele pegou aquele objeto pontiagudo que os dentistas por algum motivo gostam de usar:
- Realmente tem uma ferida.  - e cutucou.

Imediatamente me preparei para jurar que nunca, nunca, deixei um dia sequer de passar fio dental. Que passo fio dental em todas as escovações. Que passo o fio o dia inteiro, que sou até conhecido por isso, pode perguntar lá na faculdade, me chamam de "pedro do fio". E ele olhou de novo:

- Deve ter sido por uma casquinha de pão francês ou coisa assim.

Voltei pra casa e entendi tudo: não é questão de fio dental, é o pão branco que eu preciso cortar da minha vida antes que seja tarde demais.

Redação "Minhas Férias" - A salsicha

- Do que é feita a salsicha? – pergunta, em alemão, a prima alemã de sete anos. Ela, é claro, se referia à salsicha de soja: desde pequena é vegetariana e eu não sei se ela sabe da existência de outras salsichas.

- De carne de criancinha, filha. – responde, sério, o tio ex-maharaj hare krishna.



E a conversa chega à mesa onde os outros se servem.

- Tão falando pra menina que a salsicha é feita de carne de criancinha!

- De certo foi o Raphael. Raphaaaaaeeeel – grita minha avó antes de qualquer um tivesse tempo de absolvê-lo – pára de assustar a menina, Raphael. Depois ela não vai querer comer!

- Que que foi, Dora?

- Não fala de carne na frente da menina, Raphael, eles não comem carne! Quantas vezes preciso te dizer?

- Ah, sim sim. Mas não comem carne por quê?


***


- A Samya tá pedindo pra comer salsicha de carne? - pergunta outra tia na outra mesa

- Parece que tá. Mas o pai dela tá fazendo terrorismo dizendo que é carne de criancinha.

- Ai, que absurdo, dizer isso só pra criança não querer comer carne. Isso também já é demais.


***


-  Salsicha de criancinha brasileira é melhor mesmo.- diz o tio inconveniente.

- Salsichas boas são feitas com crianças de até 1 ano. Depois disso a carne fica dura e compromete o sabor - completa o primo

- Vocês estão brincando com coisa séria! A menina vai parar de comer, pelo amor de deus! - repreende a avó - ela já não come muito, agora vai ficar traumatizada...(para a minha avó, nenhum neto come o suficiente. E pior que eu, só minha prima).

- Ai, mãe, não precisa fazer escarcéu por causa disso!

- é, vó, ela já é grande e sabe que é piada. Não sabe, Samya?

- Não é isso, é que depois seu pai começa a fazer brincadeirinha e a menina de repente é capaz de deixar de comer - argumenta minha avó.



- Pelo menos estão gostosas as criancinhas, Samya? - pergunto eu, é claro.


E ela, na ponta da mesa e com o benefício da língua estrangeira, consegue fingir, com a boca cheia de salsicha, que não está ouvindo a conversa.

Redação "Minhas Férias" - O jantar

Hora do jantar no hospício. Enquanto não estão todos na mesa, alguns se responsabilizam por gritar (e intimar) os que ainda não apareceram e o resto fica perguntando na mesa:
- Onde está o Warté?
- Já estão chamando, já estão chamando
- Mas escuta, vai esfriar a comida. Avisa pra ele vir logo.
- Pedro, Clara, vai chamar seu pai, vai.
- Não precisa, Vó, acho que ele tá dormindo. Depois ele se vira.
- WARTÉÉÉÉ, VAI ESFRIAR! - ouve-se alguém chamando da varanda
- Ué... quem falta? Tá sobrando uma cadeira?
- É DO WARTÉ! - respondem os sentados em uníssono.
- Mas, escuta, quedê o Warté? 

***

- Passa a geléia, por favor?
- Não, não use essa faca suja, vai estragar todo o resto. Geléia é assim: não pode entrar nenhuma "impureza" se não estraga - diz minha avó
- Pode deixar, Dona Dora. Tô pegando uma limpa.
- Eu tenho uma faca limpa aqui, quer? - oferece um tio
- Usa o cabo da colher! - sugere um primo
- O que foi? acabaram as facas? - pergunta uma tia 
- Peraí que vou buscar mais da cozinha
- Não precisa, não precisa. Tá aqui ó, limpei com o guardanapo e já passei no pão. Pronto, pronto.

E o vidro de geléia continua circulando pela mesa da mesma forma que os assuntos, até que uma tia sempre reacende a discussão:
- Também não tinha problema colocar a faca suja, o vidro já tá acabando mesmo, ó. Não tem nem o que estragar.
- Já tá acabando? Puxa, não cheguei nem a experimentar. - suspira a minha avó, no equilíbrio exato de volume entre não querer que ninguém ouça e querer que todo mundo ouça.

A geléia passeia na mesa até chegar na minha avó:
- Meu deus, que judiação! Olha o restinho que deixaram! Vai ter que voltar o vidro pra geladeira com tão pouquinho dentro... por que não terminaram de uma vez? Come, Kim, come o resto. Você não quer, Pedro? Ahhh.. não vão deixar sobrar!
- Mas mãe, não era a senhora que tava reclamando que queria experimentar?
- Ah! dae, vá! Não se pode mais dizer nada nessa casa...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Livre arbítrio

Atenção: isso é uma gravação. Ao terceiro toque, deixe seu recado. Antes de entrar, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar. Ande devagar, verifique os freios, dirija com cuidado, desça sempre engranado. Sorria! Você está sendo filmado.
É proibido fumar. Em caso de congestionamento, desligue o motor. Não pise na grama, não ultrapasse a faixa amarela. Desligue os aparelhos celulares, mantenha seu pager ligado. 
Não use flash, não risque fósforos: risco de morte, perigo à vida. As saídas de incêndio localizam-se no fundo do teatro. Tenha um bom espetáculo. O assento é preferencial, mas seu uso é livre. Desligue a TV e vá ler um livro. Faça silêncio.
Ao sair, apague a luz.

sábado, 12 de novembro de 2011

Dois escorpiões


Ela não cabe na cena, ela é maior que o palco. Ela ultrapassa os limites do quadro como um sorriso ultrapassa os limites do rosto. Não adianta enquadrá-la com uma câmera fixa porque ela foge do frame. Não adianta enquadrá-la, ela não cabe na cena. E não cabe a mim explicá-la.
Foi no palco que eu a conheci pela segunda vez. E só depois (e já faz um bom tempo), conheci a parte que não cabia no quadro. De lá pra cá, dividimos bombas de chocolate, quartos de dormir, letras de música, projetos culturais e esfihas no jaber. Trocamos e-mails, discos, poemas e broncas (quase todas merecidas). Nos ajudamos daqueles jeitos e naqueles momentos em que não há dinheiro que pague. Nos irritamos mutuamente com nossos defeitos e com esse jeitinho que a gente teima em ter. Mas se não fossem esses jeitinhos, o que seria da nossa amizade?

Ele não sai de cena. Ele monta o personagem, escolhe as frases de efeito, veste o figurino. Costura e corta. Dirige, atua e apresenta.
Depois que lhe fui apresentado, demorei a conhecê-lo desmontado e para além do clichê. Mas quando vi seu outro lado, nos tornamos amigos de infância, de convivência diária e constante.
Aprendi que temos os mesmos objetivos de vida, mas nossos gostos, caminhos e referências são completamente diferentes. Para minha sorte, esses caminhos se cruzaram e pudemos nos complementar para podermos seguir paralelos.
Ele tem tanta segurança de algumas coisas que às vezes até me empresta um pouco quando eu preciso. E olha que eu já precisei muito. E olha que ele já me agüentou muito. Foi ele quem me ajudou a assumir de vez o meu lado pop e que me explicou que eu podia fazer o que eu quiser. Foi ele que me disse que tudo vai dar certo e é nele que eu prefiro acreditar. Se não fosse por ele, eu não sei como eu estaria agora mas sei que eu não estaria assim.

Os dois nasceram no dia 12 de novembro. Ela há 50 anos, ele há 20. Se encontraram pouquíssimas vezes, mas talvez sejam mais parecidos do que imaginam. Os dois são fundamentais para o meu lado profissional. E para o lado pessoal do meu lado profissional. E para todos os meus lados. São eles que acreditam em mim e que, nas horas certas, me falam do meu talento. São eles também que me levam a shows e baladas, que me divertem, que me aguentam.
São eles: a minha amiga Gigi Trujillo e o meu amigo Marlon Brambilla. E eu tenho certeza que você ainda vai ouvir falar mais deles.

domingo, 3 de abril de 2011

Redação "Minhas Férias" - O relógio

Na sala do hospício da minha família, também conhecido como casa de campo, existem dois relógios antigos: um em cada extremidade. Um deles, um cuco, foi dado de presente de casamento aos meus avós, há 57 anos. O outro, mais antigo, era coisa do meu bisavô.

O fato é que, em 2010, ambos fazem questão de chamar atenção para sua antigüidade berrando tic-tacs na sala. E parecem competir: um diz TIC e o outro responde mais alto TAC.

Parecem me testar: com quantos tic-tic-tac-tacs se faz um surto psicótico?

Quem é de fora da família pode até sugerir desligar pelo menos um deles, mas eu digo que é ingenuidade. Todos nós já caímos na tentação fácil de desligá-lo e tivemos que aguentar uma conversa em looping na manhã seguinte:



- Desligaram o relógio - diz o meu avô, um entusiasta da indeterminação do sujeito através da terminação verbal em terceira pessoa do plural.

- RAPHAEL, são eles que desligam durante a noite pra assistir televisão, é só ligar de novo! - grita minha avó.

- Eles quem, Dora?

- Como eles quem, Raphael? Seus netos, seus filhos. Quem mais? o cachorro é que não, né? Eu também não.

- Mas não se pode mais saber as horas nessa casa!

- Ai, pai, aproveita que tá de férias, não precisa olhar o relógio - se intromete a filha

- É SÓ ACERTAR, RAPHAEL! - se irrita minha avó.

- Mas que horas são, Dora? Como vou saber que horas são?

- Aperta o ponto de interrogação no controle da tevê, vô - se mete um neto, provavelmente admitindo alguma culpa na história. Provavelmente eu.

- Quedê a interrogação?

- Ih, Raphael, não adianta nem tentar, isso não é pragente. Filho, não adianta ensinar essas coisas que a gente não consegue aprender, é demais pra nossa cabeça. Peraí que vou olhar as horas no relógio da cozinha

- Mas quem desligou esse relógio? Por que desligaram? Acabou a corda?

- Ai, Raphael, eles desligam porque dizem que faz barulho. Eu não me importo, nem escuto. Mas eles dizem que faz barulho. Mas não se incomode: vou jogar fora esse relógio do meu sogro porque já vi que quando a gente morrer eles não vão querer ficar com ele mesmo, não adianta.

- Vai jogar fora por que, Dora?

- POR QUE ELES DESLIGAM ESSE RELÓGIO, RAPHAEL.

- Não precisa jogar fora, Vó. É só deixar ele quietinho – digo eu.

- Não. ninguém gosta desse relógio mesmo. Vou jogar ele fora. - dramatiza minha avó.

- Quem que fica desligando esse relógio? - meu avô que pergunta, claro.

- O CACHORRO, RAPHAEL, O CACHORRO!

- Que cachorro?

- AI, MADONNA SANTA! - clama em italiano a minha avó. (acho que para a mãe do filho de Deus, não para a rainha do pop, mas sempre fico em dúvida).

- Mas escuta, por que desligaram o relógio? – recomeça meu avô.


E daí a conversa se repete em looping, como o tic tac do relógio.

TIC-TIC-TAC-TAC TIC-TIC-TAC-TAC e a vida parece mais simples desse jeito.


(Dezembro/ 2010)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Pra evitar o amargor


Hoje apareceu na minha frente uma foto de três meninos, há muito tempo atrás, rindo por rir e matando o tempo tirando uma foto hilariamente idiota. O estranho é que um dos meninos sou eu e, apesar de muito velha, a foto não tem nem 8 meses.

Mas sabe-se que aquele tempo, aquela foto e aquele momento não voltam mais. Nem aquelas tardes e tardes, cheias de risadas e afinação de idéias, com tanta vontade e tanta motivação. Talvez a gente pensasse que pudesse mudar o mundo, o audiovisual ou as nossas vidas. Talvez a gente até tenha mudado de fato. Será que tudo em volta mudou mais? Eis que chega roda viva e carrega a viola pra lá?

Sabendo-se que não se pode (e nem eu quero) voltar pra aquele agosto, será que outros dias de trabalho tão bons ainda virão pela frente?
Será que achar que não é que é envelhecer? Isso é que é amargar?

Só sei que vontade que tenho agora é de dizer: obrigado por aquelas tardes. Ainda bem que elas existiram e ficaram em mim feito tatuagem.

Penso isso enquanto tomo um café com leite com mais açúcar que o normal só pra prevenir o amargor.

"Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer".

Esse texto é procês dois. Querem um gole?