Semana passada, acordei com uma leve dor no dente que eu não sabia
identificar muito bem o porquê. Só sabia que doía quando mordia, o que
me deixou com a pulga atrás da orelha (ou no meio do dente, não dava pra
saber ao certo).
No dia seguinte, a dor aumentou. Era cárie, só podia. E ainda
daquelas bem entre os dentes. Como se trata cárie entre os dentes? A
broca alcança? Será que tem que tirar o dente, extrair a cárie e então
por de novo? Dá pra fazer isso? Pensei nos momentos em que não passei o
fio dental (passo todos os dias, exceto naqueles em que a vida parece
ser curta demais para passar fio dental). Devia ter passado todos os
dias, pensei: a vida não é tão curta assim para precisar de uma prótese
aos 21 anos. Fui até o espelho e sorri bem largo. Pelo menos não dava
pra ver o dente e, se eu precisasse extrair, ninguém perceberia enquanto
não houvesse um novo no lugar.
Hoje eu já tinha uma consulta marcada com o dentista (questão de
siso), por isso, ontem eu decidi que reverteria aquela cárie com fio
dental. Quanto fio dental fosse necessário. Todo o fio dental que há no
mundo. Mas assim que passei no tal do dente, tcharan: a linha saiu toda
manchada de sangue. Fiz então o que não se faz numa hora desas:
consultei o Google e vocês não imaginam as coisas horrorosas que causam
sangramento na gengiva.
Cheguei no dentista fingindo estar super tranqüilo, com a cara
que a gente faz pra fingir pro professor que vamos tirar 10 na prova que
ele está entregando. Achei melhor já começar a consulta mostrando o
problema antes que ele percebesse, poupando-me da humilhação. Nem bem
ele colocou a luva, eu já estava lá, de boca aberta e apontando: "é aqui
ó: entre o último e o penúltimo dente, tô sentindo um leve incômodo"
(achei melhor chamar de "leve incômodo" no lugar de "dor dilacerante").
Ele olhou, olhou. Franziu a testa (eu gelei), pegou o espelhinho (minha boca gelou).
- Aqui? - ele perguntou, mas eu achei melhor nem responder. Ele pegou
aquele objeto pontiagudo que os dentistas por algum motivo gostam de
usar:
- Realmente tem uma ferida. - e cutucou.
Imediatamente me preparei para jurar que nunca, nunca, deixei um
dia sequer de passar fio dental. Que passo fio dental em todas as
escovações. Que passo o fio o dia inteiro, que sou até conhecido por
isso, pode perguntar lá na faculdade, me chamam de "pedro do fio". E ele olhou de novo:
- Deve ter sido por uma casquinha de pão francês ou coisa assim.
Voltei pra casa e entendi tudo: não é questão de fio dental, é o
pão branco que eu preciso cortar da minha vida antes que seja tarde
demais.
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