Na sala do hospício da minha família, também conhecido como casa de campo, existem dois relógios antigos: um em cada extremidade. Um deles, um cuco, foi dado de presente de casamento aos meus avós, há 57 anos. O outro, mais antigo, era coisa do meu bisavô.
O fato é que, em 2010, ambos fazem questão de chamar atenção para sua antigüidade berrando tic-tacs na sala. E parecem competir: um diz TIC e o outro responde mais alto TAC.
Parecem me testar: com quantos tic-tic-tac-tacs se faz um surto psicótico?
Quem é de fora da família pode até sugerir desligar pelo menos um deles, mas eu digo que é ingenuidade. Todos nós já caímos na tentação fácil de desligá-lo e tivemos que aguentar uma conversa em looping na manhã seguinte:
- Desligaram o relógio - diz o meu avô, um entusiasta da indeterminação do sujeito através da terminação verbal em terceira pessoa do plural.
- RAPHAEL, são eles que desligam durante a noite pra assistir televisão, é só ligar de novo! - grita minha avó.
- Eles quem, Dora?
- Como eles quem, Raphael? Seus netos, seus filhos. Quem mais? o cachorro é que não, né? Eu também não.
- Mas não se pode mais saber as horas nessa casa!
- Ai, pai, aproveita que tá de férias, não precisa olhar o relógio - se intromete a filha
- É SÓ ACERTAR, RAPHAEL! - se irrita minha avó.
- Mas que horas são, Dora? Como vou saber que horas são?
- Aperta o ponto de interrogação no controle da tevê, vô - se mete um neto, provavelmente admitindo alguma culpa na história. Provavelmente eu.
- Quedê a interrogação?
- Ih, Raphael, não adianta nem tentar, isso não é pragente. Filho, não adianta ensinar essas coisas que a gente não consegue aprender, é demais pra nossa cabeça. Peraí que vou olhar as horas no relógio da cozinha
- Mas quem desligou esse relógio? Por que desligaram? Acabou a corda?
- Ai, Raphael, eles desligam porque dizem que faz barulho. Eu não me importo, nem escuto. Mas eles dizem que faz barulho. Mas não se incomode: vou jogar fora esse relógio do meu sogro porque já vi que quando a gente morrer eles não vão querer ficar com ele mesmo, não adianta.
- Vai jogar fora por que, Dora?
- POR QUE ELES DESLIGAM ESSE RELÓGIO, RAPHAEL.
- Não precisa jogar fora, Vó. É só deixar ele quietinho – digo eu.
- Não. ninguém gosta desse relógio mesmo. Vou jogar ele fora. - dramatiza minha avó.
- Quem que fica desligando esse relógio? - meu avô que pergunta, claro.
- O CACHORRO, RAPHAEL, O CACHORRO!
- Que cachorro?
- AI, MADONNA SANTA! - clama em italiano a minha avó. (acho que para a mãe do filho de Deus, não para a rainha do pop, mas sempre fico em dúvida).
- Mas escuta, por que desligaram o relógio? – recomeça meu avô.
E daí a conversa se repete em looping, como o tic tac do relógio.
TIC-TIC-TAC-TAC TIC-TIC-TAC-TAC e a vida parece mais simples desse jeito.
(Dezembro/ 2010)