- Do que é feita a salsicha? – pergunta, em alemão, a prima alemã de sete anos. Ela, é claro, se referia à salsicha de soja: desde pequena é vegetariana e eu não sei se ela sabe da existência de outras salsichas.
- De carne de criancinha, filha. – responde, sério, o tio ex-maharaj hare krishna.
E a conversa chega à mesa onde os outros se servem.
- Tão falando pra menina que a salsicha é feita de carne de criancinha!
- De certo foi o Raphael. Raphaaaaaeeeel – grita minha avó antes de qualquer um tivesse tempo de absolvê-lo – pára de assustar a menina, Raphael. Depois ela não vai querer comer!
- Que que foi, Dora?
- Não fala de carne na frente da menina, Raphael, eles não comem carne! Quantas vezes preciso te dizer?
- Ah, sim sim. Mas não comem carne por quê?
***
- A Samya tá pedindo pra comer salsicha de carne? - pergunta outra tia na outra mesa
- Parece que tá. Mas o pai dela tá fazendo terrorismo dizendo que é carne de criancinha.
- Ai, que absurdo, dizer isso só pra criança não querer comer carne. Isso também já é demais.
***
- Salsicha de criancinha brasileira é melhor mesmo.- diz o tio inconveniente.
- Salsichas boas são feitas com crianças de até 1 ano. Depois disso a carne fica dura e compromete o sabor - completa o primo
- Vocês estão brincando com coisa séria! A menina vai parar de comer, pelo amor de deus! - repreende a avó - ela já não come muito, agora vai ficar traumatizada...(para a minha avó, nenhum neto come o suficiente. E pior que eu, só minha prima).
- Ai, mãe, não precisa fazer escarcéu por causa disso!
- é, vó, ela já é grande e sabe que é piada. Não sabe, Samya?
- Não é isso, é que depois seu pai começa a fazer brincadeirinha e a menina de repente é capaz de deixar de comer - argumenta minha avó.
- Pelo menos estão gostosas as criancinhas, Samya? - pergunto eu, é claro.
E ela, na ponta da mesa e com o benefício da língua estrangeira, consegue fingir, com a boca cheia de salsicha, que não está ouvindo a conversa.
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