Atenção: isso é uma gravação. Ao terceiro toque, deixe seu recado. Antes de entrar, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar. Ande devagar, verifique os freios, dirija com cuidado, desça sempre engranado. Sorria! Você está sendo filmado.
É proibido fumar. Em caso de congestionamento, desligue o motor. Não pise na grama, não ultrapasse a faixa amarela. Desligue os aparelhos celulares, mantenha seu pager ligado.
Não use flash, não risque fósforos: risco de morte, perigo à vida. As saídas de incêndio localizam-se no fundo do teatro. Tenha um bom espetáculo. O assento é preferencial, mas seu uso é livre. Desligue a TV e vá ler um livro. Faça silêncio.
Ao sair, apague a luz.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
sábado, 12 de novembro de 2011
Dois escorpiões
Ela não cabe na cena, ela é maior que o palco. Ela ultrapassa os limites do quadro como um sorriso ultrapassa os limites do rosto. Não adianta enquadrá-la com uma câmera fixa porque ela foge do frame. Não adianta enquadrá-la, ela não cabe na cena. E não cabe a mim explicá-la.
Foi no palco que eu a conheci pela segunda vez. E só depois (e já faz um bom tempo), conheci a parte que não cabia no quadro. De lá pra cá, dividimos bombas de chocolate, quartos de dormir, letras de música, projetos culturais e esfihas no jaber. Trocamos e-mails, discos, poemas e broncas (quase todas merecidas). Nos ajudamos daqueles jeitos e naqueles momentos em que não há dinheiro que pague. Nos irritamos mutuamente com nossos defeitos e com esse jeitinho que a gente teima em ter. Mas se não fossem esses jeitinhos, o que seria da nossa amizade?
Ele não sai de cena. Ele monta o personagem, escolhe as frases de efeito, veste o figurino. Costura e corta. Dirige, atua e apresenta.
Depois que lhe fui apresentado, demorei a conhecê-lo desmontado e para além do clichê. Mas quando vi seu outro lado, nos tornamos amigos de infância, de convivência diária e constante.
Aprendi que temos os mesmos objetivos de vida, mas nossos gostos, caminhos e referências são completamente diferentes. Para minha sorte, esses caminhos se cruzaram e pudemos nos complementar para podermos seguir paralelos.
Ele tem tanta segurança de algumas coisas que às vezes até me empresta um pouco quando eu preciso. E olha que eu já precisei muito. E olha que ele já me agüentou muito. Foi ele quem me ajudou a assumir de vez o meu lado pop e que me explicou que eu podia fazer o que eu quiser. Foi ele que me disse que tudo vai dar certo e é nele que eu prefiro acreditar. Se não fosse por ele, eu não sei como eu estaria agora mas sei que eu não estaria assim.
Ele tem tanta segurança de algumas coisas que às vezes até me empresta um pouco quando eu preciso. E olha que eu já precisei muito. E olha que ele já me agüentou muito. Foi ele quem me ajudou a assumir de vez o meu lado pop e que me explicou que eu podia fazer o que eu quiser. Foi ele que me disse que tudo vai dar certo e é nele que eu prefiro acreditar. Se não fosse por ele, eu não sei como eu estaria agora mas sei que eu não estaria assim.
Os dois nasceram no dia 12 de novembro. Ela há 50 anos, ele há 20. Se encontraram pouquíssimas vezes, mas talvez sejam mais parecidos do que imaginam. Os dois são fundamentais para o meu lado profissional. E para o lado pessoal do meu lado profissional. E para todos os meus lados. São eles que acreditam em mim e que, nas horas certas, me falam do meu talento. São eles também que me levam a shows e baladas, que me divertem, que me aguentam.
São eles: a minha amiga Gigi Trujillo e o meu amigo Marlon Brambilla. E eu tenho certeza que você ainda vai ouvir falar mais deles.
domingo, 3 de abril de 2011
Redação "Minhas Férias" - O relógio
Na sala do hospício da minha família, também conhecido como casa de campo, existem dois relógios antigos: um em cada extremidade. Um deles, um cuco, foi dado de presente de casamento aos meus avós, há 57 anos. O outro, mais antigo, era coisa do meu bisavô.
O fato é que, em 2010, ambos fazem questão de chamar atenção para sua antigüidade berrando tic-tacs na sala. E parecem competir: um diz TIC e o outro responde mais alto TAC.
Parecem me testar: com quantos tic-tic-tac-tacs se faz um surto psicótico?
Quem é de fora da família pode até sugerir desligar pelo menos um deles, mas eu digo que é ingenuidade. Todos nós já caímos na tentação fácil de desligá-lo e tivemos que aguentar uma conversa em looping na manhã seguinte:
- Desligaram o relógio - diz o meu avô, um entusiasta da indeterminação do sujeito através da terminação verbal em terceira pessoa do plural.
- RAPHAEL, são eles que desligam durante a noite pra assistir televisão, é só ligar de novo! - grita minha avó.
- Eles quem, Dora?
- Como eles quem, Raphael? Seus netos, seus filhos. Quem mais? o cachorro é que não, né? Eu também não.
- Mas não se pode mais saber as horas nessa casa!
- Ai, pai, aproveita que tá de férias, não precisa olhar o relógio - se intromete a filha
- É SÓ ACERTAR, RAPHAEL! - se irrita minha avó.
- Mas que horas são, Dora? Como vou saber que horas são?
- Aperta o ponto de interrogação no controle da tevê, vô - se mete um neto, provavelmente admitindo alguma culpa na história. Provavelmente eu.
- Quedê a interrogação?
- Ih, Raphael, não adianta nem tentar, isso não é pragente. Filho, não adianta ensinar essas coisas que a gente não consegue aprender, é demais pra nossa cabeça. Peraí que vou olhar as horas no relógio da cozinha
- Mas quem desligou esse relógio? Por que desligaram? Acabou a corda?
- Ai, Raphael, eles desligam porque dizem que faz barulho. Eu não me importo, nem escuto. Mas eles dizem que faz barulho. Mas não se incomode: vou jogar fora esse relógio do meu sogro porque já vi que quando a gente morrer eles não vão querer ficar com ele mesmo, não adianta.
- Vai jogar fora por que, Dora?
- POR QUE ELES DESLIGAM ESSE RELÓGIO, RAPHAEL.
- Não precisa jogar fora, Vó. É só deixar ele quietinho – digo eu.
- Não. ninguém gosta desse relógio mesmo. Vou jogar ele fora. - dramatiza minha avó.
- Quem que fica desligando esse relógio? - meu avô que pergunta, claro.
- O CACHORRO, RAPHAEL, O CACHORRO!
- Que cachorro?
- AI, MADONNA SANTA! - clama em italiano a minha avó. (acho que para a mãe do filho de Deus, não para a rainha do pop, mas sempre fico em dúvida).
- Mas escuta, por que desligaram o relógio? – recomeça meu avô.
E daí a conversa se repete em looping, como o tic tac do relógio.
TIC-TIC-TAC-TAC TIC-TIC-TAC-TAC e a vida parece mais simples desse jeito.
(Dezembro/ 2010)
O fato é que, em 2010, ambos fazem questão de chamar atenção para sua antigüidade berrando tic-tacs na sala. E parecem competir: um diz TIC e o outro responde mais alto TAC.
Parecem me testar: com quantos tic-tic-tac-tacs se faz um surto psicótico?
Quem é de fora da família pode até sugerir desligar pelo menos um deles, mas eu digo que é ingenuidade. Todos nós já caímos na tentação fácil de desligá-lo e tivemos que aguentar uma conversa em looping na manhã seguinte:
- Desligaram o relógio - diz o meu avô, um entusiasta da indeterminação do sujeito através da terminação verbal em terceira pessoa do plural.
- RAPHAEL, são eles que desligam durante a noite pra assistir televisão, é só ligar de novo! - grita minha avó.
- Eles quem, Dora?
- Como eles quem, Raphael? Seus netos, seus filhos. Quem mais? o cachorro é que não, né? Eu também não.
- Mas não se pode mais saber as horas nessa casa!
- Ai, pai, aproveita que tá de férias, não precisa olhar o relógio - se intromete a filha
- É SÓ ACERTAR, RAPHAEL! - se irrita minha avó.
- Mas que horas são, Dora? Como vou saber que horas são?
- Aperta o ponto de interrogação no controle da tevê, vô - se mete um neto, provavelmente admitindo alguma culpa na história. Provavelmente eu.
- Quedê a interrogação?
- Ih, Raphael, não adianta nem tentar, isso não é pragente. Filho, não adianta ensinar essas coisas que a gente não consegue aprender, é demais pra nossa cabeça. Peraí que vou olhar as horas no relógio da cozinha
- Mas quem desligou esse relógio? Por que desligaram? Acabou a corda?
- Ai, Raphael, eles desligam porque dizem que faz barulho. Eu não me importo, nem escuto. Mas eles dizem que faz barulho. Mas não se incomode: vou jogar fora esse relógio do meu sogro porque já vi que quando a gente morrer eles não vão querer ficar com ele mesmo, não adianta.
- Vai jogar fora por que, Dora?
- POR QUE ELES DESLIGAM ESSE RELÓGIO, RAPHAEL.
- Não precisa jogar fora, Vó. É só deixar ele quietinho – digo eu.
- Não. ninguém gosta desse relógio mesmo. Vou jogar ele fora. - dramatiza minha avó.
- Quem que fica desligando esse relógio? - meu avô que pergunta, claro.
- O CACHORRO, RAPHAEL, O CACHORRO!
- Que cachorro?
- AI, MADONNA SANTA! - clama em italiano a minha avó. (acho que para a mãe do filho de Deus, não para a rainha do pop, mas sempre fico em dúvida).
- Mas escuta, por que desligaram o relógio? – recomeça meu avô.
E daí a conversa se repete em looping, como o tic tac do relógio.
TIC-TIC-TAC-TAC TIC-TIC-TAC-TAC e a vida parece mais simples desse jeito.
(Dezembro/ 2010)
quarta-feira, 23 de março de 2011
Pra evitar o amargor

Hoje apareceu na minha frente uma foto de três meninos, há muito tempo atrás, rindo por rir e matando o tempo tirando uma foto hilariamente idiota. O estranho é que um dos meninos sou eu e, apesar de muito velha, a foto não tem nem 8 meses.
Mas sabe-se que aquele tempo, aquela foto e aquele momento não voltam mais. Nem aquelas tardes e tardes, cheias de risadas e afinação de idéias, com tanta vontade e tanta motivação. Talvez a gente pensasse que pudesse mudar o mundo, o audiovisual ou as nossas vidas. Talvez a gente até tenha mudado de fato. Será que tudo em volta mudou mais? Eis que chega roda viva e carrega a viola pra lá?
Sabendo-se que não se pode (e nem eu quero) voltar pra aquele agosto, será que outros dias de trabalho tão bons ainda virão pela frente?
Será que achar que não é que é envelhecer? Isso é que é amargar?
Só sei que vontade que tenho agora é de dizer: obrigado por aquelas tardes. Ainda bem que elas existiram e ficaram em mim feito tatuagem.
Penso isso enquanto tomo um café com leite com mais açúcar que o normal só pra prevenir o amargor.
"Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer".
Esse texto é procês dois. Querem um gole?
quinta-feira, 10 de março de 2011
Uma fatia para começar um blog

No meio de uma fome no meio da tarde, achei no meio do armário uma caixa fechada de Chocotone, totalmente à vista mas por algum motivo ignorada pelos quatro membros da família nos últimos três meses.
Não vejo a menor graça em Chocotone (sou um entusiasta das frutas cristalizadas, não vou negar), mas achei que se um Chocotone foi abandonado durante tanto tempo, era essa a hora de ele ser aberto. E assim, comi uma fatia com gosto de dezembro.
Tô dizendo isso só porque uma das minhas resoluções de ano novo era escrever mais e publicar mais. Agora que o ano começa, depois do carnaval e de uma fatia de chocotone, acho que é hora de começar a cumprir e é pra isso que serve esse blog.
(A parte do "voltar pra academia" e "parar de roer unhas" eu ainda vou procrastinar mais um pouco).
Se for pra dizer assim...
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